28.5.17

A PERMANÊNCIA NO MISTÉRIO
Llansol e Adua Guerra Santos



«Diálogo com Llansol»

Tivemos ontem mais uma sessão da «Letra E» do Espaço Llansol no MU.SA de Sintra, com a exposição de desenhos de Adua Guerra Santos largamente inspirados na sua leitura de Maria Gabriela Llansol. Pudemos ver uma conjunto significativo de grafites e de obras a cores, com títulos reveladores, como os das séries «Metanoite», «Talvez se chamasse Mistéria», «Divina proporção» e outras, e conversámos com o artista e a investigadora Rita Benis sobre a problemática do mistério, presente no texto de Llansol e nas obras de Adua.
Deixamos aqui, para quem não foi a Sintra, os textos que suscitaram o diálogo, que teve também intervenções de Maria Etelvina Santos e João Barrento:  as notas do artista a propósito desta exposição e passagens do texto introdutório ao caderno que fizémos para a ocasião, em que se situa esta problemática com especial referência à Obra de M. G. Llansol. E, naturalmente, algumas das obras expostas.

*


Adua Guerra Santos
A permanência no mistério


Reconhecer o mistério, identificar as manifestações do mistério, é também uma forma daquilo a que se chama «cair-em-si» (a nossa origem é o mistério primeiro). Maria Filomena Molder refere como possibilidades de alguém cair-em-si três exemplos:
- Experiência amorosa (ex.: confronto com a rejeição);
- Relação com a morte (ex.: morte de alguém próximo);
- Arte (ex.: estranhamento em relação a uma obra).
Algo que nos questiona existencialmente é sempre uma forma de cair-em-si (verdadeiro rosto do mundo, lugares onde se foi, lugares de onde se vem, a alma de cada ser). Uma das sensações mais fortes no cair-em-si éo estranhamento e a sensaçãode que está tudo por fazer, sempre esteve tudo por fazer (em relação a nós próprios e em relação ao mundo), um enorme sentimento de incompreensão («Chuva… tenho tristeza! Mas porquê? / Vento… tenho saudades! Mas de quê?» - Florbela Espanca). Nesses instantes há a passagem de um estado de inocência para a necessidade de um estado de experiência. Há um depois e um:

e agora?
E as alternativas são:
- Ignorar, esquecer, não dar importância é sempre uma possibilidade (a mais confortável, não é preciso fazer nada), há o pressentimento de que se entra num caminho sem fim e isso assusta… mas desconfio que a dúvida do que aquilo é, do que se é, permanecerá sempre na vida (estaremos sempre na busca de entender aquilo que não queremos conhecer).

ou
- «Deixar-se cair» e aceitar o Mistério, pressupor, como diz João Barrento, «a possibilidade de intuir a luz nas trevas, na superfície aparentemente impenetrável do mundo. No momento em que essa intuição acontece dá-se também a entrada num segundo nível: a elevação da realidade apercebida a uma potência superior, a descoberta do mistério que há nas coisas. […] O mistério… está nas próprias coisas, no mundo que se oferece à decifração intuitiva.»
O que mais me fascina em M. G. Llansol é essa elevação da realidade apercebida e a revelação na escrita da sua permanência no Mistério:
«Estou na parte do templo destinada aos que vivem envoltos em mistério».

«Metanoite»

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João Barrento
Llansol: Os caminhos do mistério

«Mistério» significa, na sua raiz, algo que é da ordem do secreto – e do sagrado. Contrariamente ao enigma, com o qual se não deve confundir, o mistério tende para a iluminação, mas não para a (re)solução. No mistério, luz e trevas convivem sempre, em graus diversos, em perfeita correspondência com o mundo visível, «o desconhecido que nos acompanha» (vd. O Senhor de Herbais), e que a escrita ou a arte tentam permanentemente iluminar.  […]

O mistério é aí o da tensão criativa, de uma dialéctica dos opostos que não é a das oposições binárias simplistas, mas a da pluralidade da aparente unidade do mundo na sua superfície. […] Sabemos muito, mas ainda não sabemos disso, do modo de ser essencial das coisas, do mundo e de nós próprios. 
Em última análise, o mistério das coisas não existe fora delas, consiste simplesmente em elas serem, estarem aí assim, furtando-se indefinidamente ao nosso entendimento. Por isso o mistério, contrariamente ao enigma, que é sempre um problema em busca de solução, é eternamente diferido enquanto objecto de nostalgia. Objecto que pode ter muitos nomes, com contornos mais ou menos discerníveis no horizonte dessa nostalgia.

Em Maria Gabriela Llansol, o mistério pode, assim, ter por nome -Eus, restante vida, paisagem, mútuo ou ambo, cena fulgor, metanoite ou comunidade... Também pode ser o mistério ou a nostalgia do azul, imagem de uma completude ou perfeição daquilo que é o que é, e não exige explicação: «O azul é o sinal da esfera terrestre», «figura de contemplação» (cf. O Azul Imperfeito - Livro de Horas V, p. 360). O que acontece é que estaremos sempre nesta busca infinita e inglória de nomear o mistério, que é o inominável: porque vivemos entre a coisa (que «realmente» desconhecemos), a sua imagem (que é o seu fantasma) e o nome (que lhe passa ao lado). Mas palavra e imagem é tudo o que temos, e com isso teremos de chegar aonde pudermos.
Este, porém, é o ponto de partida de um «cratilismo» da linguagem, das linguagens, que pretende que a coisa é indizível. Mas há o outro, o de um orfismo que nos vem lembrar que as coisas estão aí para serem nomeadas. O mistério pressupõe então, como para Goethe ou Llansol, a possibilidade de intuir a luz nas trevas, na superfície aparentemente impenetrável do mundo. […]

A cena fulgor llansoliana é a manifestação desta dialéctica, muitas vezes não apenas bi-polar, mas com muitas gradações intermédias. E as grafites de Adua procuram também transmitir algo assim. Por isso, a relação artística produtiva com o mistério (que não é aqui já o das religiões, mas o do Ser) não é obscurecedora, mas traduz um aclarar progressivo e relativo das trevas (como Adua diz do seu trabalho). Relativo, porque um resto insondável permanece, tem de permanecer, já que a forma, plástica ou de linguagem, pode quando muito sugerir o informe, mas nunca revelá-lo ou identificar-se plenamente com ele.



«Talvez se chamasse Mistéria»

Se nos aproximarmos um pouco mais da prática de escrita e da visão do mundo de M. G. Llansol, perceberemos facilmente que para ela o mistério não está no inefável, em que não parece acreditar, nem numa qualquer espiritualidade mais ou menos esotérica (o olhar de Llansol é antes exotérico, interessa-lhe o visível). Mas também não se trata aqui de despir as coisas de qualquer mistério, à la Caeiro. O mistério para Llansol, a existir, está nas próprias coisas, no mundo que se oferece à decifração intuitiva, e não fora deles – quando muito, em mim, se por mim se entender um corpo, e não já uma interioridade romântica. Em toda a sua Obra é a ordem da imanência que se impõe… […]

Visto deste modo, o mistério manifesta-se no texto de Llansol sob múltiplas formas, figuras e «categorias». Enumero algumas:
Há o mistério da Figura, eternamente em metamorfose, sem morte;
– Há o mistério do encontro, no eterno retorno do mútuo e no seu paradoxo de ser confrontação e encontro, de gerar sempre outra coisa nova;
– Há o mistério do mundo, que é «o desconhecido que nos acompanha»;
– Há o mistério da metanoite, que é a noite obscura – mas não escura – da busca, do risco e da mutação;
– Há o mistério da cena fulgor, com um brilho súbito cuja origem se perdeu;
– Há o mistério do humano, de que não se conhece a essência, oscilando sempre entre os desastres do «gregarismo» e as insuficiências do rebelde e do eremita, figuras de um mistério promissor que não vingou (cf. «Diálogo com Llull»)...
E há sobretudo o mistério que nasce da liberdade livre da composição de uma escrita sem concessões, em que nada é impossível: é o mistério do incomum e do insólito, das volutas da imagem e das associações im-prováveis, da densidade do escrito e da leveza alada dos brancos e das suspensões dos traços. E tudo isto tem um lugar de origem, inacessível, esse sim, misterioso, só visível pelos seus reflexos na linguagem: o corpo que escreve. E ninguém sabe o que pode um corp' a 'screver.
    

21.5.17

AS FORMAS DO MISTÉRIO

«… Gostaria que sobrevivesse a afirmação de que nós somos epifanias do mistério…»
(M. G. Llansol, Lisboaleipzig)

No próximo sábado, dia 27 de Maio, pelas 16 horas, estaremos mais uma vez no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, onde o artista plástico a. guerra santos («Adua») exporá desenhos a grafite feitos a partir de um diálogo com M. G. Llansol. 

a. guerra santos
Index secreto (...que o passado transporta consigo e que predestina à «salvação» para um presente certos momentos desse passado)

Trata-se de mais um encontro im-provável com a paisagem espiritual da Obra de Llansol, desta vez, e uma vez mais, com a Obra de um artista plástico, e pela senda de um substrato de espiritualidade sensível que atravessa ambos os universos, e que colocamos sob o signo do mistério. Um conceito e uma esfera do real que, contrariamente ao que se poderia pensar, servem igualmente as duas Obras e a sua busca de um caminho para a luz e o fulgor.
Disto se falará num diálogo a quatro, com o artista, a Professora Rita Benis (do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, Porto), Maria Etelvina Santos e João Barrento, do Espaço Llansol. E teremos, como sempre mais um «Caderno da Letra E» dedicado ao tema, com textos de M. G. Llansol e reproduções de obras de a. guerra santos.

6.5.17

MUSIL E(M) LLANSOL
A experiência estética da alma

No dia 11 de Maio, às 18h30, João Barrento falará no Goethe-Institut/Instituto Alemão (Campo dos Mártires da Pátria, 37) sobre o grande romancista austríaco Robert Musil e o seu romance maior, O Homem sem Qualidades, evocando a imagem que o escritor tem na Obra de Maria Gabriela Llansol.



João Barrento apresentará o percurso biográfico e literário de Musil (com projecções) e falará da relação do autor com Maria Gabriela Llansol a partir dos testemunhos que encontramos, quer nos seus livros, quer no espólio. Com leituras em paralelo de Llansol e Musil.

Robert Musil e Maria Gabriela Llansol são dois autores inactuais – e da maior actualidade. A escritora portuguesa descobre o autor austríaco para a sua escrita a partir dos anos setenta do século XX, considerando que Musil, tal como Kafka e tantas outras figuras do espaço alemão que também assimila (Eckhart, Müntzer, Bach, Hölderlin, Nietzsche), não visavam «a missão histórica da nação alemã», mas antes «a alma humana».

26.4.17

AS ACTIVIDADES DE MAIO-JUNHO

Paralelamente ao trabalho silencioso no espólio de M. G. Llansol, continuamos neste trimestre com as nossas actividades públicas, de que damos notícia, até Junho: uma conferência de João Barrento sobre a presença de Musil na Obra de Llansol (no Goethe-Institut/Instituto Alemão de Lisboa); uma exposição de obras do artista plástico a. guerra santos («Adua»), uma série de grafites feitas a partir de textos de Llansol, que mostraremos no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, em conversa com o artista e Rita Benis (do Centro de Literatura Comparada Margarida Losa, Porto); e um grande colóquio internacional em torno da presença do grande místico árabe da Península Ibérica Ibn'Arabî, em colaboração com o Centro de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa e a Sociedade Ibn 'Arabî de Murcia (na Faculdade de Letras de Lisboa, com participantes de Espanha, Itália, Brasil e Portugal).


Para cada uma destas sessões contaremos com os habituais «Cadernos da Letra E» com textos éditos e inéditos de Llansol: «A experiência estética da Alma» - Musil e(m) Llansol, M. G. Llansol / a. guerra santos, As Formas do Mistério e A Imaginação do Amor: Llansol e Ibn 'Arabî.
E haverá ainda, em Junho, a apresentação da nova edição d' O Livro das Comunidades, comemorativa dos quarenta anos deste livro, com colagens de Pedro Proença, de que deixamos já um exemplo.



23.4.17

COM LLANSOL NO DIA DO LIVRO


[Anotação de Maria Gabriela Llansol no 3º volume do seu exemplar de 
O Homem sem Qualidades, de Robert Musil]